Encontro o Xico no meu caminho para mais uma sessão de corrida no paredão de Oeiras. Um abraço sela o nosso encontro imprevisto. Pergunto pela sua família. Não responde. Faz um suspiro como quem precisa de muito tempo para contar o resto da sua história. Compreendo perfeitamente. Vinte anos é muito tempo. Talvez um jantar para acertar as contas da vida.
Pergunto pelos colegas. Encontro a mesma resposta. Silêncio. Há muito que não sabe de ninguém. Pois então vamos mas é reunir o pessoal num almoço. Mata-se o bichinho da saudade.
Tenho o contacto do Rui Natário que é um tipo alto e fixe para organizar um almoço lá para os lados do Entroncamento. Um lugar muito importante no meu imaginário. Quando era miúdo sonhava que era aí que se cruzavam todas as linhas de comboio do mundo. Antes de saber que em terras de Entroncamento também acontecem fenómenos estranhos. O comandante de bombeiros (nunca me passou pela cabeça ser bombeiro quando era criança) serve-se dos seus bons ofícios e contacta com toda a gente. A resposta foi imediata. Falo pela primeira vez com muitos colegas após um hiato de anos. Chovem diversas propostas.
Gisela tem uma alternativa que aponta para uma localidade chamada Chãos. Com o passar do tempo resfria-se o entusiasmo inicial. A lista encurta-se com o Verão. Como a roupa que se traja nessa época. Por causa dos calores, dizem os envergonhados. Lá bem no fundo todos suspiram pelo Verão para mostrar as pernas que durante um ano inteiro trabalharam no ginásio. Sim, ginásio, que isso de subir a rampa da Tapada de Ajuda foi chão que já deu uva e entorses. As prioridades familiares e outras razões profissionais não permitem que muitos possam estar presentes. Finalmente chega o dia desejado. O 11 de Julho do resto das nossas vidas.
A Lena Bragança oferece-me boleia. Traz com ela os filhos, o Francisco e a Margarida que conheci quando ainda era uma bebé. Margarida canta durante toda a viagem. Tem uma bela voz. Esteve até às quatro da manhã num concerto em Algés. Diz que gostou dos Blasted Mechanism que desconheço. Aliás, conheço pouco desta nova geração. Sou ainda do tempo dos Dinossauros. Gosto de Leonard Cohen que em fins de Julho está em Lisboa, provavelmente será o primeiro baladeiro a receber o Prémio Nobel de Literatura. Se resistir à voracidade do tempo e se a Academia Sueca ousar quebrar com o seu conservadorismo. O Francisco também canta, mas gosta é de futebol. Tem o cabelo rapado à militar. Anda no Colégio Militar por onde passaram os Anselmos.
Rio Maior é a cidade que fica no meio do trajecto. Se eu não conhecesse o local provavelmente iria perguntar pelo rio. Não há rio algum. Talvez a moca. Bem grande! Com que os locais esperavam os comunistas que por lá passavam a caminho da Marinha Grande. Mas isso foi noutros tempos que já lá vão. O carro sobe por umas veredas. Mesmo no topo plantaram geradores eólicos, moinhos de vento metálicos, que um dia talvez levantem voo e nos levem numa viagem sem trajectória. E por falar em trajectória foi difícil encontrar o local. Mas como quem tem boca vai a Roma, fomos informados por uma senhora com aspecto de Susan Boyle que o Centro fica por detrás dos ciprestes, Cupressus . Deixo o espaço em branco que é para não me enganar perante colegas. (Riam-se por favor! Riam-se!).
Aqui é o lugar onde deve nascer o vento. Um vento forte que arranca cabelos. Uma fantasia literária dado que não dou nada por isso. Provavelmente porque me faltam cabelos. (Riam-se por favor! Riam-se!).
Espera-nos o Natário com a Lurdes e as suas duas filhas, vestidas de igual e lindas de igual modo. Também a Gisela que nos apresenta os seus filhos, igualmente lindos. Orgulhos da mãe. A Inês que não gosta nada de ser interrompida enquanto pinta e o Miguel que me estende a mão para me cumprimentar.
Refugio-me no interior do restaurante cujas paredes de vidro me fazem lembrar o cockpit de um avião. Quase me faz perder a respiração com a paisagem que se me oferece. Espero que não aterre nunca. Detesto aterragens. Principalmente as forçadas. Acolho-me nesse lugar e não mais o largo. O empregado coloca na mesa os petiscos. Retiro pedaços de broa de milho. Sabem mesmo bem. Vão chegando os silvicultores. Aliás alguns são notáveis membros da Autoridade Nacional de Florestas. Não é todos os dias que me acontece estar com autoridades. Pelo menos desde que me afastei das lides diplomáticas. Faço por ignorar esse tempo. Hoje sou um homem livre. Sou a minha própria autoridade.
Chegam o João e a Lena. Um casal da Lousã. Ambos trabalham na COTFA. Estão de boa saúde. Regressam de férias. Lena bronzeada e o João queimado. Falam-me de livros. O João diz-me que é um leitor compulsivo. Não sei se é um comedor compulsivo. Tenho a certeza que é um falador compulsivo. Assim acontece quando fala de livros à mesa. Ao meu lado senta-se o André. Gosto do André porque me fala sempre de coração aberto. É com o coração nas mãos que fala da sua luta pessoal quando lhe nasce uma filha que não ouve. Ele que é um músico. Bons ouvidos. Tem livros escritos na Caminho sobre esse assunto. O Rui Couto é dos Açores. Um engano. Quem é dos Açores é a mulher, Patrícia. Açores terra de João Melo, o autor de Gente Feliz com Lágrimas. Espero que os açoreanos sejam felizes que de lágrimas ninguém bate a minha gente. Rui confidencia que nasceu em Moçambique. Dois filhos tenistas. Um dos quais instrutor. O outro menor que o pai deseja que triunfe no ténis. Rui espera também que o Sporting seja campeão este ano. Como benfiquista digo-lhe que são esperanças vãs. Apesar de falarem da tranquilidade falta ao Sporting um salvador. Talvez o Jesus. Que é tudo menos tranquilo. Adjectivo que caracteriza o nosso colega José Alexandre que, também sendo lampião, este ano irá repetir muitas vezes, Ai Jesus! Isso para não falar de outros nomes menos santificados que os adeptos chamam ao treinador por causa das bolas que batem no ferro ou quando os jogadores não comem a relva. Não sei qual é o sabor da relva para que os adeptos exijam aos jogadores que a comam. Sei que o José Alexandre tem paixão pela leitura. Pede que lhe recomende livros para ler nas férias. Digo-lhe que sou mau conselheiro. Normalmente leio livros que ninguém lê. Livros que encontro nos alfarrabistas. Alguns ainda têm inscritos nas margens das páginas notas que um anónimo leitor lá deixou. Muitas vezes, através dessas mesmas notas, procuro saber quem teria sido o leitor ou leitores antes de mim. Neste momento leio o romance de um escritor francês que se chama Raymond Abellio, pseudónimo do filósofo Georges Soulès. O livro chama-se Os Olhos de Ezequiel Estão Abertos. E de olhos bem abertos vejo entrar o Manuel Campagnollo e mais a sua numerosa comitiva. Conheço o Manuel desde os tempos de infância quando andava com os pais, investigadores franceses, por terras de Timor. Está um pai babado. Pai atencioso. Pai como deve ser. Falando de famílias numerosas entra o Pedro Serra com a esposa e quatro filhos. Duas são gêmeas que o pai foi buscar a Viana de Castelo para conhecer outros descendentes de silvicultores. Um longo caminho para estar no encontro. A Beatriz Fidalgo continua com o seu nariz aristocrático. Apresenta-me o seu companheiro silvicultor latino-americano. O homem tem estampa de chefe índio. Cortez não foi nada cortês com a sua gente. Calculo que seja descendente de um sobrevivente. Aliás, quem não é? Luís Reis traz a filha ao colo. Durante todo o tempo traz a filha ao colo. Não a larga. É realmente um pai a sério. A mulher Catarina foi minha aluna de tétum. Para quem não sabe, tétum é a língua timorense. Fazem um belo par. Fizeram uma bela filha. Casais é um senhor. Funcionário de Carris enquanto estudante. Não sei que meio de transporte utiliza quando se desloca ao local onde é uma autoridade. Uma camioneta da Carris não é concerteza. Os silvicultores sempre foram muito liberais. Não se agarram a tradições. Alguns até se foram libertando da silvicultura. Fazem outras coisas mas trazem sempre a selva no coração. Alguns trazem desertos e savanas. Pedras. Diz António Lobo Antunes no título de um dos seus romances Eu Hei-de Amar uma Pedra. Pois cada um ama quem quiser com tudo o que lhe vai na alma. A Teresa Nogueira é mesmo silvicultora. O nome não engana. Traz o filho Afonso e uns calções coloridos, anos sessenta. Não sei se é fã dos Beach Boys. Afonso tem um tímido sorriso que, por momentos, me faz lembrar alguém que depois de ter prometido que estaria presente no encontro, pisga-se com desculpas de bom cristão. Coisas que acontecem com os naturalistas. Alguns voltam-se para a metafísica. Outros abrem lojas de ervanária.
Os útimos a chegar são a Raquel e o Xico. Raquel continua loira, jovem e afável. Não sei se todas as loiras o são. Mas Raquel é. Os anos passados no Vietnam foram profícuos. Raquel tem uma filha que também é loira. Na mesa estão sentadas uma em frente da outra. Como num espelho. E por falar em semelhanças, o Xico tem o filho que é a imagem perfeita do pai. Retrato do silvicultor enquanto criança. Pergunto ao Xico se o filho já toca guitarra. Se herdou os genes de roqueiro. O miúdo adianta-se ao pai e responde que, por enquanto, só toca piano. Aconselho-o a mudar de instrumento. A guitarra é mais fácil de transportar. Vai para todo lado. Assim como as miúdas giras. Dou de caras com Zé Luís Fabião. Fico estático. O tipo é parecido comigo. Temos as cabeças mais brilhantes da Silvicultura. (Riam-se por favor! Riam-se!)
Acabo já esta crónica para dar um grande abraço ao Natário e a Gisela pelo empenho com que nos levaram nesta viagem ao passado. Se não apanho a boleia do Rui Couto então é que fico mesmo apeado neste lugar ermo que me faz lembrar o paraíso perdido. Sou tentado a deixar-me ficar como um monge tibetano que se esquece do tempo. Mas o presente é sempre melhor do que qualquer passado ou um promissor futuro. Apresso-me a apanhar a boleia. Em Oeiras espera-me a Ana cheia de graça e uma belíssima vista para o rio...
Bem hajam!
Luís
Muito boa análise das diferentes personalidades/actividades, falta falar do escritor, daquele takas que gosta de bola e correr, que sempre escreveu e agora todos podem ler, que vai ser pai com a mesma calma oriental com que levou a vida.
ResponderEliminarQue belo "retrato" dos presentes.Deliciosa análise, muito sentida e serena. Como sempre, este Insular, parecendo ausente, está sempre no nosso coração. Grande Homem! Será que somos livres, Luís? Talvez a Graça que o Futuro te reserva te faça sentir, ainda mais livre, que esta do Presente ,...,o paredão de Oeiras e a vista sobre o rio, ajuda. Até um dia destes...
ResponderEliminarEstimado Luís
ResponderEliminarO meu filho dá-me ares, claro. Bom cristão é coisa que não sou, pois sou empedernidamente ateu. Sinto-me geralmente mais cristão depois de comer e é isto o mais próximo da experiência mística que consigo.
Desgraçadamente, não tenho o dom da bilocação como o padre Pio e como rezam as hagiografias. Tivera e teria estado ao mesmo tempo convosco e na Holanda, lembrando inesquecíveis e arrepiantes noites fantasmagóricas na pousada das Penhas Douradas e pisando - sem querer- a lápide sepulcral de Vermeer.Isto enquanto gozava a beatitude de me ver aliviado por uma semana dos compensadores mas implacáveis e infindos cuidados parentais.
Mas há mais marés que marinheiros, mesmo que alguns, perdidos, demandem drogas de botica e ervas e nisso se percam futilmente.
Um abraço.
J.
Não pude estar presente, mas com a descrição do Luís é como se por momentos estive estado lá.
ResponderEliminarFico à espera do próximo encontro e farei tudo para estar presente. Beijos. Rosário Fialho.